13 de Fevereiro de 2009

As nossas histórias, os nossos feitos (2)

Centro Hípico Dom Duarte: Escola de Equitação de Montemor-o-Novo

Obriguei-me a sair cedo da cama num sábado de manhã, em Janeiro, quando o frio faz gelar o nariz e nos deixa com a pele vermelha. O sol andava escondido entre as nuvens cinzentas, pesadas, grandes, ameaçadoras de chuva, num equilíbrio que atrasou por umas horas um temporal. Não levava expectativas, apenas sono e alguma preguiça, ainda assim mais fracas que a vontade de conhecer. “Será que num dia como o de hoje vou encontrar alguém?”

Encontrei. Frescos, simpáticos, bem-dispostos, muito bem acompanhados. Todos! Alunos, cavalos e instrutor. Chuva? Qual chuva? Frio? Não, nada disso. Prazer! Sim, prazer, prazer de ensinar, prazer em montar, prazer em estar ali. E sim, também uma boa dose de paixão! Paixão por cavalos! E aqui não há forma de fingir ou não levar a sério. A equitação é daqueles desportos que exige dedicação a 100%, a começar pela relação com os cavalos. Um bom cavaleiro é antes de mais o melhor amigo do cavalo, aquele que cuida, aquele que dispende do seu tempo para se dedicar ao animal, para o tratar, acarinhar, deixar bonito. Montar é uma etapa que vem depois…

Senti-me envergonhada por sentir frio, por ir com cara de ensonada. Por ali, esses aspectos são meros pormenores. É sábado de manhã, é dia de aula de equitação! Que mais importa? Por isso, deixei-me levar nessa onda e aproveitei para ficar como espectadora. Os exercícios seguiam à voz do instrutor, certos, coordenados, numa sequência lógica e crescente. Cerca de dez cavalos trotavam compassadamente em fila, guardando a distância devida uns dos outros. Mudança de direcção, mudança de mão, costas direitas, confiança, segurança nas rédeas, uma festa no cavalo se se portou bem. Às vezes uma repreensão: o cavaleiro que não seguiu na direcção certa, as rédeas que foram puxadas demais, a distância que não foi mantida. Os mais extrovertidos desculpam-se com o cavalo, que hoje não está nos seus dias. A aula segue para a pista de ensino. Agora as ordens são dadas através de letras que estão marcadas na pista, juntamente com a indicação do tipo de marcha. A concentração é importante, o controlo do cavalo essencial. Aspectos sempre a melhorar, tudo se treina, tudo se aprende, ainda que o “jeito” e o perfil pessoal do cavaleiro contem bastante. Os mais novos, mais tímidos e ainda algo inseguros, seguem muito atentos, os mais velhos, mais à vontade e destemidos, já brincam e se for preciso repreendem o cavalo. Seja como for, as regras nunca são esquecidas. As ordens do instrutor são sempre acatadas e ninguém monta ou desmonta sem pedir licença. O respeito e o rigor sentem-se logo ao início e ainda que o espírito seja familiar e descontraído, não se abdica desse trato formal, que também faz parte.

A Escola de Equitação de Montemor-o-Novo foi criada em 1983, tendo conquistado ao longo destes anos prestígio a nível da arte equestre nacional. Inicialmente criada com o apoio da GNR, veio mais tarde a ter o apoio da Câmara Municipal e do Grupo de Amigos de Montemor. Em 2003 foi autonomizada como “associação sem fins lucrativos”, tomando o nome de “Centro Hípico Dom Duarte”. A escola encontra-se em instalações provisórias desde 1992, em terrenos da Câmara Municipal, que, apesar de uma boa pista de saltos, não têm condições de ensino e manutenção dos cavalos. O picadeiro é a céu aberto e as cavalariças são pequenas, construídas em chapa e escuras. Há já alguns anos que estão prometidas obras, para construir novas cavalariças e um picadeiro coberto, existindo já um projecto. Resta aguardar, não perder a esperança e manter a vontade de montar faça chuva ou faça sol.

Actualmente a escola tem cerca de 20 alunos e conta com o empenho e dedicação dos instrutores Cabo Chefe José Borges e Ana Marta Seixas. O Centro tem a seu cargo 14 cavalos, que são na sua maioria de particulares (alguns dos alunos). No tratamento e alimentação dos cavalos, bem como na limpeza das cavalariças, ajudam alguns utentes da Cercimor e da Associação 29 de Abril, sendo que um grupo de utentes desta Associação tem também aulas de equitação! Com poucos recursos e dependendo principalmente da dedicação do Chefe Cabo Borges, a escola governa-se financeiramente com um patrocínio e com as mensalidades para os cavalos e dos alunos, sendo por isso preciosa a ajuda dos pais, interessados e colaborantes.

As aulas de equitação são às quartas-feiras à tarde e aos sábados de manhã. A partir dos 8 anos pode começar-se a aprender a montar e na escola há alunos com essa idade. No princípio aprende-se a lidar com o cavalo, a aparelha-lo, a limpá-lo e só depois se começa a montar, aos poucos, devagarinho e a passo, para ganhar confiança. Depois, já mais para a frente, dependendo da idade e da atitude mais ou menos destemida do cavaleiro, começa-se com os saltos de obstáculos, disciplina para a qual a escola está vocacionada. Para sermos mais rigorosos, começa-se pelo “Volteio”, seguindo-se depois para a “Cela 1”, “Cela 2”, “Cela 3” e “Cela 4”. Neste último nível ou etapa, o cavaleiro pode preparar-se para o exame de “Cela 4” da Federação Equestre Portuguesa com o objectivo de se tornar cavaleiro federado. Para ser bem sucedido o cavaleiro tem que efectuar uma prova escrita, uma prova de ensino, uma prova de saltos e uma prova de limpeza do cavalo. É um exame exigente, rigoroso, para o qual é preciso muito treino. Em Montemor existem vários cavaleiros federados e muitos que o desejam ser, desde os que estão já a treinar para isso até aos mais pequenos, que vêem nos mais velhos exemplo, sem querer ficar atrás.

O Centro Hípico dedica-se à disciplina de saltos de obstáculos, promovendo dois concursos anuais de saltos de categoria C, um em Julho e outro em Setembro, este realizado em colaboração com a Câmara Municipal durante a Feira da Luz. Os concursos são motivo de orgulho: desde o acolhimento do público, aos cavaleiros conceituados que se trazem a Montemor, passando pela oportunidade dos nossos cavaleiros competirem em casa até à verdadeira festa que são! Fica na sombra todo o esforço de organização, como em qualquer evento deste gabarito. São necessários os juízes de pista, a assistência médica, a assistência veterinária, o júri do terreno e, claro, o director! Não se podem esquecer os anúncios, os patrocínios, o regulamento, as inscrições e também o apoio da Câmara Municipal. Os deste ano já estão agendados: 11 e 12 de Julho e 5 e 6 de Setembro.

O trabalho é bastante, não só nos concursos, mas ao longo de todo o ano. Mas acima de tudo é preciso verdadeira paixão e essa sente-se, desde logo. As histórias são muitas e os alunos que por aqui passaram deixaram marca e saudade. Ficam as recordações, as partidas dos cavaleiros ainda gaiatos, as lembranças dos festivais e concursos, das viagens pelo país fora para saltar, os muitos louvores, os diplomas, as taças. O sorriso bem disposto de quem limpa os estribos num compasso brincalhão e a imagem do Cabo Chefe Borges, personalidade indissociável da equitação em Montemor.

A todos um muito obrigado enorme! Não levava expectativas, mas trouxe um saco cheio de novos conhecimentos e boa disposição, muito mais do que podia imaginar. Talvez um dia me aventure a montar e nessa altura saberei a que porta bater.


Instrutores
Cabo Chefe Borges
Ana Marta Seixas Fialho

Alunos
Paulo Serrano
Cláudia Vieira
João Conceição
João Salgueiro
Margarida Padeira Nunes
Osvaldo Pinto
Manuel Comenda
Carlos Castanheira
Flaminio Prates
João Nunes
Miguel Brejo
Nuno Pedreirinha
Beatriz Potes
João Moreira
João Comenda
João Abreu
João Borda D’Água
Leandro Sousa
Júlia Lindemann
Luísa Lindemann
Margarida Marques de Sousa
Paulo Calçada
Sara Santos
Vanessa Pereira
Ana Alice Pinto
Rita Borges
Tiago Borges

Fevereiro / 2009
Catarina Pinto Xavier

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